Como era doce, me lembro bem, a vida nos anos de inocência, Digna de uma felicidade gritante. Não sabia, mas vejo agora que era quase cândido acordar cedo, muito cedo, pegar o cobertor e o travesseiro e inocentemente sair da cama para o sofá na sala de estar pelo prazer de assistirr desenhos animados que só passariam naquela hora do dia, e o que me apetecia naqueles momentos era além de estar vendo a animação, poder usar cobertor na sala. Ai ai ai se estivesse calor: sofreria, soaria, mas não largaria do meu cobertor. Lembro-me das tardes em que eu ficava deitado no tédio, esperando que a minha mãe esquentasse e pusesse na mamadeira leite com açucar, que consolava a mim e a minha mãe a falta do achocolatado: eu nem me importava, era melhor que hoje. Às vezes me envolve a mesma satisfação de quando com toda minha força arremessei no matagal perto da velha casa, hoje um pouco abandonada, mas não pela memória, a mamadeira logo após eu acabar de ingerir seu conteúdo de leite e açucar. Joguei com muita força, e queria era que a minha força refletisse o quanto eu era crescido e como eu não mais precisaria daquele objeto. Fui esnobe: depois que a gente cresce a gente fica sem entender porque queríamos isso. Houve uma época em que não tínhamos carro: tinha gosto de mel a viajem no transporte coletivo que eu fazia com meu pai nos domingos à igreja; às vezes brigávamos eu e meu irmão quase bebê para decidir quem puxava a cordinha para dar sinal de parada ao motorista do ônibus. A maior alegria desses domingos que estão quase desaparecendo, não à época, mas agora, era ver o orgulho de meu pai no corredor principal do templo, com um filho engastaiado em cada um dos braços, nem sei se por vontade própria: quando vejo uma pessoinha de mesma estatura que a minha naqueles dias eu penso “não tem querer”. E todas as músicas dos cultos evangélicos que eu entoava com todo o meu coração sem mesmo saber das letras? Provavelmente pela rotina de escuta, mas se antigamente já me emocionavam, como criancinha que era, hoje emocionam potencializadamente tanto que se me deparo com um arranjo mesmo que apenas simplesmente parecido com o das músicas de minha igreja desce de mim um ímpeto de choro. Fui crescendo nesse ambiente, de doces músicas de louvor, e uma das que nunca sairam do meu coração, mesmo depois de rebelar-me contra o paraíso de conforto que a Igreja sempre me trouxe é a que diz: “E, como os serafins que cobrem o rosto ante a ti, escondo o rosto para que vejam a tua face em mim…”. Me lembro da felicidade tão despercebida que me invadia quando eu ia bater bola no meio do asfalto grosso, com as metas marcadas a giz ou com pedras, ou com sapatos de qualquer menino, e me lembro de como eram boas as ocasiões em que, nesse asfalto grosso, perto da minha velha casa abandonada, eu podia proteger-me os pés dos cacos e das britas com uma sandália qualquer. É, às vezes ia descalço mesmo, mas a alegria não se desfazia por isso. Olhando daqui, do alto, até os relances de solidão e tristeza que me abalavam nos tais dias parecem felizes. Sempre tive esse complexo de tendência à tristeza que na infância, quando ficava, por isso, triste sem nenhuma razão aparente, eu dizia, docemente, “estar com dó de mim mesmo”, e até tomava medidas para que eu “não ficasse nunca com dó de mim mesmo”, como, às vezes, não ouvir certa canção. Bem me vêm à memória as lembranças do ambiente escolar. Esolca pública, com uma merenda que pouco me apetecia, e ouvia meus queridos amigos (quem a vida me tirou, todos) dizerem: “coma da merenda, Samuel, está uma delícia” e eu fazia uma cara de quem não acreditava. Soltava que “no último dia de aula, na última série, eu como a merenda”, porque acreditava que a ultima série estava eternamente distante. A última série já acabou fazem anos, e eu não comi da merenda. Era bonita a minha vontade de ir à escola, nas tardes dos dias úteis, fazendo caminhadas longuíssimas, na minha opinião, sob um calor infernal, que é o uberlandense, para chegar à escola. A distância, calculo hoje, não passa de forma alguma de três quilômetros. Sei que se for colocada uma pessoa com quem eu tive contato até os nove anos, época de maior idade referida, meu coração irá disparar em busca do tempo em que eu era incessantemente, irreversivelmente feliz. Nem as memórias tristes, como as duas vezes em que eu vi com olhos próprios papai sofrer um ateque cardíaco e por pouquíssimo não morrer bem ali, na minha frente, tiram a glória dessa minha fase da vida. Nunca hei de me esquecer da tarde de sexta em que eu me apaixonei por alguém por quem até hoje, confesso, ando meio apaixonado. Me lembro das horas das conversas que inocentes que tivemos e de como eu estava fortemente amarrado à essa pessoa. Mas para que mesmo que eu estou contanto sobre tantos fatos aleatórios…? Ah, para lembrar que a vida fica amarga.
Peguei meu remo, apostei para o horizonte e remei. Remei até que o tempo parou de passar. Deixei você na terra firme, junto das minhas mágoas. Ficaram todas lá. Leivei a inevitável saudade, contra a minha vontade. Leivei a consequete tristeza, a antagônica alegria de partir. Aprumei-me sem você, o que não foi fácil. O estrago que você me causou foi exposto abertamente. A ferida aberta, desilusões tão vernáculas, muito vívidas, sempre foi platônico me desvencilhar delas. Você me abalou, mas quem me deu forças para a recomposição foi você. Reestruturei-me pelo que você me mostrou, firmei bases e ossos nas suas palavras. Você me reorganizou e eu me senti forte, mais uma vez, para seguir sem você. O ato não se dá sem dor, não pensa que não arranca de mim metade, e que mais um pouco sempre esteve com você. Parto, e parto-me. Remo para o horizonte com membros amputados. A lida dos dias há de acabar com o que me resta. Meu barco é muito pesado, então aborto também as minhas convicções, aborto minhas alegrias. O estado em que me encontro não releva felicidades e, não serei injusto, mas não sei dizer se é bom, nem tristezas. O estrago em mim é grande, procuro aflito alguém para arcar com a conta dos anos. Procuro alguém em que me sustentar: há só meu barco, e meu remo. Então procuro alguém para dilacerar-me novamente.
Olhos longínquos, você entregou à mim todo seu ser. Entregou-se toda em uma só jogada, sem resquícios de dúvidas, certa. E eu, do outro lado, peguei-a ainda no ar, com seus braços abertos e vestida com um sorriso que até se podia sentir cheiro. E mesmo em meu colo, seus cabelos ainda voam, dançando no ar -cada fio vívido. O mundo inteiro é um borrão, gritamos de volta para ele coisas boas, coisas fortes de amor. Sem medo que a felicidade um dia se esgote, somos envoltos por ela e de nós escorre toda paz do mundo. Amizade e esgotamento colidem, nosso sangue sai sorrindo. Celebramos esse dia e dele os instantes são infinitos.
Luz de minha vida é por ti que me guio. Fico feliz em turvar-me a visão para adaptar-me a ver-te, enche-me de alegria mudar-me para que tu enxergues-me melhor. De coração, mudaria até a cor do meu sangue para que tu fiques contente comigo. É certo que já não me vêem os demais como viam-me outrora: tua luz refletiu-se em mim e quebrou espectros em retinas acomodadas. Confesso que nem a mim deixou de surpreender. Tu quebrastes-me as expectativas, irradiates-te para além do esperado e tua luz habita o vácuo do meu coração até na horas que escrevo-te e torno pública esta carta. Não na velocidade física do espaço, mas tua luz está em mim nos tempos mais lentos, e nas linhas mais eternas. Até penso que não há, de maneira nenhuma o tempo, não consigo ater-me no detalhe, mas estou convencido de que, se há um tempo, leva anos para percorrer segundos. E na medida que a luz do teu ser ilumina os caminhos do meu coração, vou-a seguindo, contornando-lhe as curvas, refletindo-lhe o explendor.
Mas vejo que tudo que me resta agora é a flâmula tênue de resquícios de memória que guardei em mim das alegrias que causastes-me. Luz da minha vida, tu abistivestes-te de mim e, enquanto guardo no profundo do meu âmago os flagelados flashes de alegria que tu me propiciastes, mesmo sem ter a consciência, ás vezes tendo, encontro-me às cegas num navio que silenciosamente afunda, ou dentro da Terra que lentamente se desfaz.
Dei-te o meu eu, e fostes embora com ele. Não mais consigo compreender-me, ou apreender de meu raciocínio alguma razão. Estou desfalecido numa amarga falta de cálculo e não consigo direcionar-me à nenhum ânseio senão ter-me outra vez. Dei-te tudo que podia, meus sentidos me abandonaram. Não vejo mais a verdade, sinto pelo espírito uma deformação da realidade; não tenho mais gosto nem paladar. Estou indiferente, quieto, isolado em nada, porque não é possível isolar-me em mim.
Busco-te como em uma prece: volte e traga-me contigo. Mostra me os caminhos do gozo, as setas do paraíso. Enche mais uma vez minha alma das tuas luzes, acaba com minhas misérias de memórias, trague-me a vontade de, mais uma vez, pulsar.
Iolanda,
Porque tu não enxergas meu total amor por ti? Porque insistes em me fazer homem dolo? Porque tu abres minhas feridas e me deixa estancado ao sol? Não consigo compreender, sua áurea nunca fora negra e seu coração nunca fora tão impenetrável. Mas nego, conheço-te e sei que amou. Amou dois homens em mesma época. Eu era um e amava outra mulher: abandonei-a, porque tornei-me capaz de sobrepor um amor antigo por você, Iolanda. Decidi me entregar ao seu desejo, porque eu queria o fogo do novo…. Queria beijar teus lábios e ofegar-me em teu peito. Logo eu precisaria renegar ao amor que já não era mais mútuo. E o fiz. Ah, Iolanda. Porque me iludistes? Não consigo compreender. Seu amor é o pior dos venenos: fez-me acreditar que amaria somente a mim, que só eu seria o dono de seus segredos e guardião de suas escolhas. Agora estou sozinho e a negridão da noite me mata aos poucos. Sofrimento infindável, interminável, de valises! Porque não amas mais, Iolanda? Tu dizias que teu apreço por mim era eterno, que sua compaixão era sua forma de amar. Mas agora consigo enxergar a mentira e a verdade é meu martírio: você nunca me amou. Seu prazer quase doentio me reduziu ao irreduzível, humilhou-me da mais cruel forma, jogou-me no abismo da ilusão. Saibas que não sou mais o mesmo, tornei-me reflexivo: meu instinto é a últimas das etapas e meu coração é o últimos dos prêmios. Creio que um dia tu beberas de sua própria entranha peçonhosa e sofrerás de peito partido. Quando acontecer, espero que tu lembres de mim, Iolanda, e perceba como amar ás cegas fere a alma.